quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Aliança Meia Cana Anatômica

A aliança é uma das joias mais fáceis de fabricar dentro da joalheria. Por isso, o aluno iniciante geralmente começa o aprendizado por ela, pois permite entender várias etapas básicas do processo.

Esta postagem não tem a intenção de ensinar todo o passo a passo da confecção da aliança, mas sim mostrar alguns macetes importantes que ajudam a evitar erros comuns.

O processo começa, como em qualquer trabalho de fundição, com a fusão do ouro. Neste exemplo, são utilizados 14 gramas de ouro para que, ao final do trabalho, a aliança fique com aproximadamente 11 gramas.

Em seguida, joga-se um pouco de bórax sobre o metal. O bórax funciona como um fluxo, ajudando a proteger o ouro da oxidação durante o aquecimento e facilitando a fusão do metal.
Apesar de o fogo aparecer vermelho na foto (efeito da imagem), na prática a chama correta é azul, indicando uma combustão adequada para a fundição.
Depois de fundido, o metal líquido é despejado na lingoteira, que deve estar devidamente untada com cera de abelha para evitar que o metal grude e para facilitar a retirada do lingote.

Após isso, aquece-se o lingote e em seguida joga-se no ácido, com o objetivo de retirar os resíduos de bórax. Depois de alguns minutos o lingote estará limpo.

Depois, mergulha-se em água com bicarbonato de sódio para eliminar qualquer resíduo de ácido. Esses resíduos, sejam de bórax ou de ácido, se forem levados para a laminação, vão desgastar o laminador e prejudicar o aço dos cilindros.

Feita essa limpeza, o próximo passo é recozer o lingote e, em seguida, laminá-lo na canaleta quadrada até atingir aproximadamente 5 cm.

Você pode se perguntar: já que o metal será recozido, o fogo não eliminaria o ácido? A resposta é sim, porém, nesse caso, você acabaria respirando os gases do ácido que evaporam com o aquecimento. Por isso, o correto e mais seguro é neutralizar o ácido do metal antes de recozer.


Após recozer, deixa-se o lingote esfriar sobre o tás de aço. Eu costumo usar a válvula ( de motor de carro) para ajudar no resfriamento e agilizar o processo.

Esse par de alianças vai ficar nos números 24 e 20 e o correto seria puxar até 124 mm (24 = 6,4 cm e 20 = 6,0 cm; então 6,4 + 6,0 = 12,4 cm, ou seja, 124 mm). Isso valeria se fosse uma meia-cana normal.

Como, neste caso, a aliança é anatômica, precisamos puxar de um a três números a mais, dependendo da largura e da altura da aliança que será feita.

O fio fica com quase 130 mm, pois ainda será necessário cortar as pontas defeituosas. Por isso, é importante trabalhar sempre com cerca de 10% a 15% a mais no peso do material.
Neste caso, vou aumentar apenas um número para cada aliança, portanto o comprimento final será de 126 mm. 

Usando a parte traseira do paquímetro, vamos medir e cortar o trecho da aliança que será número 24. Porém, por se tratar de uma aliança anatômica, corta-se um número maior para facilitar o ajuste posterior.

Sendo assim, o corte será feito com 65 mm.

Esses 65 mm são usados porque a aliança é anatômica. Esse tipo de aliança consome um pouco mais de material no ajuste e no fechamento, e cortar um comprimento maior dá margem para corrigir o tamanho depois, sem risco de a aliança ficar pequena.

Pulo do gato: eu uso o cortador de charneira para deixar o corte bem alinhado, o que facilita o fechamento e garante um encaixe melhor na hora da soldagem.


Depois de cortar o fio em 65 mm, a parte que sobra fica exatamente com 61 mm. 
Observação: essa tabela é uma referência prática para cálculo rápido. Em alianças anatômicas, sempre deixe uma pequena margem a mais para facilitar o ajuste final.

Comprimento do fio (cm) | Comprimento (mm) | Número da aneleira
------------------------|------------------|-------------------
5,0 cm                  | 50 mm            | 10
5,1 cm                  | 51 mm            | 11
5,2 cm                  | 52 mm            | 12
5,3 cm                  | 53 mm            | 13
5,4 cm                  | 54 mm            | 14
5,5 cm                  | 55 mm            | 15
5,6 cm                  | 56 mm            | 16
5,7 cm                  | 57 mm            | 17
5,8 cm                  | 58 mm            | 18
5,9 cm                  | 59 mm            | 19
6,0 cm                  | 60 mm            | 20
6,1 cm                  | 61 mm            | 21
6,2 cm                  | 62 mm            | 22
6,3 cm                  | 63 mm            | 23
6,4 cm                  | 64 mm            | 24
6,5 cm                  | 65 mm            | 25
6,6 cm                  | 66 mm            | 26
6,7 cm                  | 67 mm            | 27
6,8 cm                  | 68 mm            | 28
6,9 cm                  | 69 mm            | 29
7,0 cm                  | 70 mm            | 30
7,1 cm                  | 71 mm            | 31
7,2 cm                  | 72 mm            | 32
7,3 cm                  | 73 mm            | 33
7,4 cm                  | 74 mm            | 34
7,5 cm                  | 75 mm            | 35
7,6 cm                  | 76 mm            | 36

 Voltemos ao tutorial:
Agora vamos colocar a timbragem 750 na parte interna da aliança, identificando o teor do ouro e garantindo a conformidade da peça.
 Protegendo a superfície da aliança com um pedaço de lixa ou couro, evitamos marcas e danos durante a timbragem.
Coloco também a minha marca pessoal, identificando o autor da peça e garantindo a procedência do trabalho.
Com a ajuda da calandra ou de um alicate, vamos “virar” o fio, dando início à formação do aro da aliança.

Desculpem o excesso de claridade pois o flash foi acionado sem necessidade


Como a calandra já deixa os aros quase perfeitos, serão necessários apenas pequenos ajustes no alinhamento das pontas antes da soldagem.
Em seguida, acertamos a emenda com um alicate, tomando cuidado para não marcar demais nem amassar a aliança.
Pulo do gato: notem que a aliança abaixo ficou com um pequeno vão em uma das extremidades, pois a serra se desviou um pouco durante o corte.
 Nesse caso, encaixamos uma lixa na emenda e puxamos de um lado para o outro, tomando cuidado para não deixar a lixa sair do encaixe.
 De um lado para outro.

Em seguida, inverte-se o lado da lixa e repete-se o processo, garantindo que as duas extremidades fiquem bem alinhadas.
 
Para abrir a aliança, encaixe um alicate e abra levemente apenas o suficiente para inserir a lixa.


Com as pontas bem alinhadas, a aliança fica pronta para a soldagem.
Nesse ponto, aplica-se o fluxo de solda com um pincel na emenda. Em seguida, com a ajuda de um apoiador de solda, coloca-se um pequeno pedaço de solda sobre a emenda, aquecendo ao redor dela até que a solda escorra corretamente.






 Observe se a solda escorreu corretamente, para evitar ter que refazer a soldagem.
Com a ajuda de um abrasivo e do motor de chicote, vamos desgastar a solda na parte interna da aliança, sempre com cuidado para não remover material em excesso.

 Após isso, vamos acertar o número da aliança, lembrando que a aliança anatômica deve ser feita um número menor. Se for feita exatamente no número correto da aneleira, ela tende a ficar larga no dedo.

O fato de termos feito a aliança inicialmente com um número maior é justamente para não precisarmos aumentá-la demais depois. Na aliança anatômica, se ela for feita no número exato antes de “virá-la”, ela vai diminuir quando formarmos a elipse ou ao “virar” a peça.

Essa redução de medida é uma característica própria do modelo anatômico.

Outra questão importante é que, ao fazer a aliança um número menor, no momento de acertar o número o aro acaba ficando com a elipse perfeita, garantindo melhor ajuste e conforto no dedo. Isso serve para o modelo anatômico e para os demais.
Essa aliança foi fechada apenas meio número menor por se tratar de um caso particular; normalmente, o padrão é fechar um número menor.
Pulo do gato: com um punção de bola, bate-se levemente com o martelo nas duas laterais da aliança. Isso é importante porque esse modelo, mesmo estando perfeito na parte interna, pode ficar com as laterais ovaladas ou deformadas — um defeito que não é possível corrigir apenas com o uso do tribulé.




  Pulo do gato: para limpar o timbre, passo um pouco de fluxo de solda, aqueço levemente e em seguida jogo no branqueador. Isso ajuda a remover sujeira e oxidação, deixando a marca bem definida.






Depois de branqueadas, vem a etapa de desbaste com a lixa. Eu começo usando a lixa 240 e, em seguida, passo para a lixa 360, 400 e 600 refinando a superfície.



Na parte externa, limo o excesso de solda, sempre com muito cuidado para não afetar o desenho e o perfil da aliança.



 Eu lixo à mão livre, sem usar tacos ou suporte de lixa, pois considero que assim o acabamento fica melhor.



Observe a diferença entre uma aliança sem o acabamento com a lixa (esquerda) e outra já pronta para o polimento (direita).

Depois vem o polimento e a gravação, mas isso já é outra história. Durante todo o processo, o par de alianças vai sendo pesado para controlar o material e chegar ao peso final de 11 gramas desejado pelo cliente.


7 comentários:

  1. Muito didático, meu amigo.
    Bem explicado.
    Obrigado!!

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  2. gostei, ajudou em muito.
    o bom era filmar

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    1. O Gelson Silva tem bastante material filmado no youtube,o meu problema é tempo pra filmar e editar pois trabalho em dois atelies e também o problema com a plataforma blogger que hospeda esse blog que só aceita videos curtinhos e mesmo assim demora horas pra carregar,além de piorar a qualidade de videos.

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